sábado, 10 de setembro de 2011

Tempos atrás, caminhava em um deserto árido.
E atravessava montanhas de sonhos desfeitos
e tempestades de areia.
Vislumbrava lindos castelos que se iam com a força do vento.
Por escolha ou por negligência ou atos de outros
via-me cada vez em desertos.
O oásis estava distante e, se surgia, não passava de miragem.
Ansiava por chuva para me desfazer da poeira
para lavar a alma ressequida e sedenta de vida.
O olhar procurava a planta, a flor, a natureza, a vida nem que fosse na muda ou na semente.
A caminhada em areias escaldantes já estava cansativa demais...
O sol aparecia todo dia, indiferente ao meu cansaço.
E então, sem nem perceber direito de onde veio, lampejos deesperança
na forma de trovão, relâmpagos começaram a dançar no deserto de cores descoloridas
A primeira reação foi me virar e, apesar de árida, permanecer na paisagem conhecida.
Mas o vento fazia grãos infinitos de areia machucarem os olhos.
Era preciso dar as costas ao vento para continuar enxergando
e seguir rumo ao horizonte...
E foi bem aí, nessa decisão levada pelo instinto da sobrevivência
que peguei na mão da VIDA...
E hoje, de mãos dadas com ela, enfrento o deserto com a água da esperança dentro de mim,
lavo as lembranças secas, o sofrimento árido...
A chuva sempre aparece, a poeira ainda está lá em algum canto
e o sol também...

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Ipês no inverno

Quando o inverso apaga as cores da cidade e da vida
e o som do vento é ouvido nas noites frias e úmidas de neblina.
Algo começa a se desenhar em silêncio...
As primeiras folhas caem e o céu fica mais alto, mais claro, mais frio, intuindo a vida que recomeça no seu ciclo infindável...
Primeiro o rosa no tronco sem folha,
o amarelo traz a esperança mais concreta
e a vida explode no branco, exuberante e fascinante.
Impossível não contemplar e admirar.
(Penso que o Criador preparou a exuberância dos ipês para mostrar que, apesar do inverno, há sempre uma primavera nascendo... Sempre há esperança...)

sábado, 20 de agosto de 2011

Telas coloridas

Sabe aqueles dias que a gente abre a janela e vê a vida sem cor?
Que a gente constata que o vento da mágoa, da tristeza, da apatia já percorreu e varreu todos os cantinhos da vida, vasculhou cada recanto do que um dia foi cor e deixou marcas invisíveis e doídas em cada fresta?E ainda assim, a esperança visita todo dia?
Foi num dia como esse que abri a janela...
O vento tinha soprado muito durante a noite.
Ao abrir a janela a vida estava sem cor, sem som. Mas havia a brisa reiventando vida.
Todo encanto de antes estava cinza... Ausência de dor, mas sem a cor da alegria.
Ao fixar o olhar num horizonte imaginado, percebi primeiros tons e leves matizes
A paisagem ensaiava mudanças...
As cores pintavam cenários já visitados
A cor se pintou na expectativa da nova vida, esperada, amada e desejada...
E o dia pintou parte de sua tela... planos emocionados e comentários balbuciados em vozes de bebê.
Os pequenos pássaros saudavam as cores revisitadas...
E outro dia, ao abrir a mesma janela, surpresa gerando emoção.
A tela estava toda colorida... Outra vida visitando o dia.
O colorido mais vivo se fazendo presente na janela da vida, aberta para o mundo.
Colorido real, pintado por duas vidas que gestam em solos amados...
Duas telas coloridas para encher de cores a janela da alma.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Café sem açúcar

O café quente tinha açúcar
e dava um gosto especial no leite frio da tarde,
tomado aos goles rápidos pra não perder a brincadeira.
Por vezes, depois, quis repetir
na tentativa de reviver o gosto do leite com o café pingado
e, ao mesmo tempo, reviver aquelas tarde de Londrina.
Tão alienada que era, acreditava, numa certeza inabalável, na vida sem frustração
ou e, principalmente, sem perdas.
Hoje tentei mais uma vez
o café quente no leite frio
e, enquanto o paladar se ajustava ao café sem açúcar
percebi, que pelo apego, saudosismo, ou o nome que se queira dar,
o que mais marcou no leite frio com o café doce
era a prosa solta, o toque, o riso com a marca simpática da infância...
Hoje, sem prosa e sem toque e sem fala e sem riso
engulo o leite frio com o café sem açúcar
e volto o olhar pra dentro de mim.
******
Saudosista?
Apegada?
Talvez...
Machucada com certeza...

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Pelo espelho

Imagem distorcida pelo outono que se foi
O espelho mostra o sonho do passado
e a realidade sorridente do presente;
sem futuro ainda,
sem expectativa;
só a hora do inverno
que chega avisando, mas sem planos.
Pelo espelho, imagem de mim, num grito mudo de saudades...
Pelo espelho o outono se foi...
E o inverno se interpõe no vento que traz doces perfumes...
É na latência da primavera que se gesta o verão

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Homem forte

E o homem forte chorou...
Lágrimas verdadeiras.
Como criança, ele chorou.
Todos viram
Ninguém falou...
O poder da máquina enervou o sangue do homem forte.
A noite que sempre acalmou
hoje estraçalhou o nervo.
O jornal que sempre acolheu
hoje foi jogado no chão.
A tosse seca,
óculos pesando as rugas,
bigode aumentando o formato da boca.
Ninguém o ajudou...
 O cigarro barato, no cinzeiro sujo;
a televisão ligada, falando sozinha...
O homem forte.
O homem sério.
O homem tudo...
Perdeu-se na amplidão do nada
E chorou...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Mesmo que...

Mesmo que o coração derrame em vertentes poderosas, as águas salgadas da dor;
Mesmo que a mente se recuse a aceitar o choque de uma realidade nem sonhada;
Mesmo que cada músculo, cada célula do corpo estejam paralisados, quase estagnados pela surpresa ingrata do momento;
Mesmo que não haja mais motivos nem vontades...
É possível ainda sorrir,
e aquietar a mente
e massagear o músculo e revigorar a célula
e serenar 
e regar a vida
e comemorar o sol, a flor, o pássaro, o encanto do céu
e consertar o coração
e acordar...
Há um lindo sol borbulhando luzes em algum lugar escondido da lembrança.